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By Della
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agosto 5, 2026
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12 min read

trajetória

Bruno Dellavega versão de agosto de 2026


atibaia, 2005

O ano era 2005 e eu tava escolhendo curso pra prestar vestibular. Aluno de escola pública, as opções me pareciam duas: ou a faculdade era cara, ou era impossível de entrar. Direito, medicina, engenharia nunca passaram pela minha cabeça. Não por falta de vontade, por cálculo de concorrência.

Consegui uma bolsa parcial num cursinho depois de uma prova e aproveitei até o osso. Me escondia dentro da escola pra assistir aula de outros períodos. Estudei de 16 a 18 horas por dia. E foi ali que aconteceu a coisa que ninguém esperava: eu não me apaixonei pelo vestibular, me apaixonei pela sala de aula. Pelo encanto que um professor bom consegue construir em torno de um tema qualquer.

Em paralelo tinha o lado nerd. Photoshop, Corel, Dreamweaver, Flash, tudo aprendido sozinho. Foi isso que me levou até a Advice, uma agência de Atibaia. A entrevista com o Lonzi virou uma conversa sobre comunismo e Bakunin e em algum momento a gente esqueceu que era uma entrevista.

Em resumo, fui contratado.

Fiquei três anos ali fazendo site pra Tégula, Artelassê, Castelatto, Flexboat. Passei em História na Unicamp e na Unesp e não tinha como morar fora. Escolhi Design, entrei na UNIP pelo ProUni, e em 2009 mudei pra São Paulo.

são paulo, 2009 a 2013

Quatro anos de agência pequena e cliente grande na mesma semana. Mill Ideas com Vivo, Kraft, PepsiCo, GE e Natura. r2tura com MetLife e Bimbo. Verus, Avano, Neotix, RED action, 6design com Nike, Sony, PlayStation e Levi's. Uma passagem pelo portal da Band, na época de CQC, Pânico e Donos da Bola. E a Next Interativo, onde virei diretor de criação pela primeira vez, atendendo Nike, Heineken, Caterpillar, Mitsubishi e NFL.

Nenhuma dessas passagens durou muito. Cinco anos assim ensinam uma coisa que curso nenhum ensina: você aprende a entrar em qualquer contexto e produzir na primeira semana.

artplan, 2013 a 2018

Entrei como freela no Rock in Rio Club e saí cinco anos depois como diretor de criação multimedia. Virei DC aos 26 anos, no meio da fusão da Gruda Em Mim com a Artplan. A missão era transformar a agência numa operação integrada de verdade, e não numa agência de publicidade com um anexo digital.

Foi a experiência mais importante da minha carreira e também a mais desamparada. Primeira vez formando time, primeira vez sendo gestor, sem base e sem muito apoio de quem estava acima de mim. Tive que inventar meu jeito de fazer isso. Voltei a estudar, fiz curso, entrei no programa de líderes da própria casa, e tomei a decisão que definiu o resto: meu foco não seria mais evoluir tecnicamente em design e direção de arte, seria construir times.

O time saiu de 3 pra 12 pessoas. Mantive programador dentro da criação, o que na época era esquisito e hoje é óbvio.

Rock in Rio foram cinco edições entre 2013 e 2016, em quatro cidades, incluindo a edição inédita de Las Vegas com lançamento na Times Square. Metallica no palco, o encontro do A-ha com os fãs, Missão Rock in Rio.

E os produtos. A gente criava coisa que não era peça: um app pra Amanco, uma caneca inteligente pra Melitta, uma plataforma de conexão de motociclistas pra BMW, mobiliário urbano com indução óssea. Muita proposta maluca que nunca saiu do papel (acho que ainda tem gente rindo de algumas).

O que ficou de mais durável foi o jeito Artplan de fazer concorrência: projeto detalhado, integrando todas as plataformas e serviços da casa numa entrega única. A agência liderou o ranking de novos negócios do Meio & Mensagem em 2013 e foi campeã em 2017, com 16 contas novas. Trabalhar perto dos fundadores nesse processo foi onde eu entendi negociação e sustentação de negócio de agência por dentro.

E teve a mentoria, que me reconectou com o lado professor que tinha aparecido lá no cursinho. Esse foi o ponto alto, verdade seja dita.

inpress porter novelli, 2018 a 2020

Em 2018 um antigo chefe me chamou pra criar a área de criação da InPress. A maior agência de RP do Brasil querendo competir com agência de publicidade que tinha começado a vender RP. (E, claro, querendo o dinheiro de mídia também.)

Eu não sabia nada de relações públicas. Isso ajudou.

Sem verba de mídia e sem a lógica de dupla de publicidade, o único jeito era desenhar outra coisa. Montei squads que juntavam jornalista e criativo na mesma mesa e coloquei o time de PR dentro da criação como especialista, e não como atendimento. Também juntei direção de criação e direção de estratégia num papel só, o meu. O que saiu dali foi um modelo que usava a expertise jornalística como matéria-prima criativa. Ideia boa gera pauta, não só aplauso.

TRESemmé #IssoMudaTudo foi o case que provou. Relançamento por teste cego, caixa misteriosa, rótulo lacrado, mais de 300 influenciadores dando review honesto sem saber de qual marca era o produto. Cinco meses depois, crescimento de vendas e queda pela metade nos comentários negativos. Prata em Eficácia em Campanhas de Relações Públicas nos Lusófonos.

Kero Coco #FeitoComANatureza é o meu case favorito da vida. Reposicionamento com uma regra única: nada de 3D, nada de Photoshop, nada de mockup. Só elemento real. O posicionamento virava prova no próprio processo de produção. É a síntese mais limpa do que eu penso sobre marca.

Em 2019 cofundei o InStudio, a vertical de produção audiovisual da casa. Nasceu pra viabilizar projeto que a criação inventava e a agência não conseguia produzir. Fizemos a primeira campanha publicitária completa da InPress, com filme, gráfica e conceito integrados. E montamos um modelo de negócio que unia jornalismo e áudio, com produto autoral e podcast pra cliente. O estúdio passou a ser vendido separado da agência.

Aqui um parênteses importante.

A campanha que eu mais gosto de ter feito na vida foi o Prodígio, da Atlas Quantum. Primeira campanha de bitcoin veiculada em rede nacional no Brasil, com a regulamentação de transmissão sendo escrita junto com a Globo porque não existia. Quatro pessoas produziram aquilo. Sucesso comercial imediato.

Depois veio a proibição da CVM, os saques congelados, o colapso, e o fundador desaparecendo com R$ 4 bilhões. Eu fiz uma campanha muito boa pra uma empresa que destruiu a vida de muita gente. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo e eu nunca consegui separar uma da outra.

janeiro de 2020

Pedi demissão no meio de uma crise. Estava tendo episódios de pânico e não conseguia mais funcionar. Burnout, sem romantização nenhuma.

Semanas depois o mundo fechou.

ovelha negra, 2020 a 2023

Entrei como sócio numa micro torrefação de cafés especiais em janeiro de 2020. Em março as cafeterias fecharam, os contratos de torra foram cancelados, e sobrou o estoque de café verde, o aluguel e duas pessoas.

A decisão foi não esperar o mercado voltar. Digitalizamos a operação inteira. Shopify, Facebook Ads, conteúdo orgânico, pacote de 250g vendido com margem mínima só pra cobrir custo operacional. Fomos uma das primeiras torrefações de especiais com e-commerce próprio no país. As despesas foram cobertas no primeiro mês e a operação passou a dar lucro.

E a embalagem. Tratei a embalagem como mídia, não como recipiente. A marca precisava ser reconhecível na estante da casa dos outros e compartilhável sem pedir.

O faturamento mensal saiu de R$ 4 mil pra R$ 25 mil entre 2020 e 2023. O Instagram foi de 700 pra 15 mil seguidores entre 2020 e 2021, sem um real de impulsionamento. A embalagem foi selecionada no Espresso Design Award 2020, por inscrição anônima, e a linha de correlatos que veio depois (copo, caneca, boné, camiseta) esgotou.

Uma nota de registro: o crédito publicado na Revista Espresso e no site da Semana Internacional do Café está como Bruno Motta. Sou eu. Meu nome de RG é Bruno Evaristo Mota e foi um período em que eu tentei me desvencilhar do Dellavega. Fica declarado aqui pra não parecer lacuna depois.

Vendi minha parte da sociedade em 2023. Esse foi o capítulo em que eu curei a minha relação com trabalho.

collact, 2020 a 2021

Creative Lead de branding numa startup de fidelização que a Stone tinha comprado. Meu trabalho foi unificar branding e produto dentro do ecossistema da Stone e fazer a primeira campanha da marca.

O protagonista da comunicação virou o comerciante, não o app. O conceito foi "presente nos lugares que você ama", com o duplo sentido de estar presente no bairro e de ganhar um presente por voltar. O Lindomar do Pão de Queijo Mineiro virou o filme.

A métrica interna se chamava cliente modelo: o lojista cujos consumidores se cadastravam, voltavam a comprar e resgatavam bônus. Transformar todo cliente em cliente modelo era o objetivo declarado, porque o argumento de venda da Collact era LTV.

Num experimento hiperlocal em São Carlos, menos de R$ 30 mil moveram esse indicador de um patamar de 5 a 8% pra 14%, com pico de 16%, e ele nunca mais voltou abaixo de 13. O teste foi repetido em outras praças depois que eu saí.

justos, 2021 a 2023

Fui uma das primeiras pessoas chamadas pro time. Marca do zero, insurtech de seguro de carro, três fundadores que se conheceram jogando bola em São Francisco e nenhum deles brasileiro.

Participei da facilitação que gerou as diretrizes de marca, e aquelas diretrizes seguem em uso até hoje. Com um time enxuto a gente construiu a primeira versão de todos os pontos de contato: produto, experiência digital, comunicação, presença pública. Depois assumi brand marketing liderando quatro pessoas, com campanha, conteúdo, guerrilha, earned media. Implantei OKR e métrica de ROI, que é uma coisa que praticamente nenhum diretor de criação carrega no currículo.

Seed de US$ 2,8 milhões em maio de 2021, cerca de R$ 15 milhões, liderada pela Kaszek, com os CEOs de sete unicórnios dentro. Série A de US$ 35,8 milhões em outubro do mesmo ano, cerca de R$ 200 milhões, liderada pela Ribbit Capital, com SoftBank e GGV. A maior da América Latina até então. Clipping em Exame, InfoMoney, NeoFeed, PEGN, Pipeline, TechCrunch, Estadão, Valor e Globo. Mais de 40 veículos. 100 Startups to Watch.

Em fevereiro o time inteiro de branding foi desligado. O meu chefe escreveu no LinkedIn que em qualquer outro cenário de mercado não abriria mão de mim. Bacana de ler. Não muda o fato.

kanastra, 2023

Marketing manager numa fintech de infraestrutura pra fundos. Função multidisciplinar de verdade: rebranding, PR com release alinhado ao posicionamento, apoio inicial ao product marketing. Também 100 Startups to Watch, OKR de revenue, depoimento de cliente B2B em vídeo.

Foi curto e foi útil. B2B financeiro é o contexto em que a criatividade tem menos espaço declarado e mais espaço real.

portland, 2023 a 2024

Diretor de criação aliado, em regime freela. Mas a relação com a casa começou muito antes: sou mentor voluntário lá desde junho de 2017 e participei das bancas de seleção da 1ª, 2ª e 4ª temporadas.

O trabalho era visão conceitual dos projetos e evolução do time. Mentoria estruturada pra gente em formação, que é onde o lado professor volta sempre. O case foi Shaking The Bar, da Sony, com influenciadores.

ana couto, 2024

Senior Creative na consultoria de branding. Cinco meses, e foram os cinco meses em que eu voltei pro rigor de sistema.

Camponesa, da Alvoar, foi o projeto mais completo: plataforma de branding, manifesto em filme, KV aprovado depois de cinco versões, campanha por linha de produto, jingle, embalagem. Também Yelum (a antiga HDI), Tarobá, TelePerformance, Hapvida.

Consultoria de branding te obriga a defender cada decisão com argumento de marca e não com gosto. Isso é bom pra qualquer diretor de criação e é ótimo pra quem veio da publicidade.

purpple, agosto de 2024 a julho de 2026

Entrei como Creative Manager, aceitando um cargo abaixo do que eu já tinha sido, porque o território era novo e eu queria ele. Em dois anos foram quatro cargos: Creative Manager, Social & Influencer Marketing Manager, Gerente de Social & Conteúdo e Diretor de Social. A progressão mais rápida da minha carreira, e numa casa só.

O que eu construí ali não foi campanha, foi operação.

Cheguei depois de uma perda de contas de social. Comecei sozinho. O primeiro time foi dois creators, um multimídia e um community manager, operando duas frentes. Quando eu saí, eram dez pessoas nos três papéis, atendendo seis frentes simultâneas. Menos de dois anos, de zero a isso, montado a partir de um estrago.

O modelo tinha uma tese: social feito por creator, não por operador de canal. Criativo generalista que resolve o problema sem se prender a formato nem a etapa, e um time de community na frente do dado e da relação com a audiência. Foi esse modelo que originou a Purpple Creators. Em março de 2026 o Clube de Criação publicou a mudança e a minha promoção pra diretor da área.

Em julho eu fechei um estudo modelando a operação inteira em três moedas que não se somam: dias de condução criativa, dias de produção, interações de comunidade. A conta mostrava 144 dias de demanda de produção por mês contra 64 dias de capacidade instalada, com o SLA de aprovação valendo cerca de 58 dias por mês, mais do que qualquer contratação resolveria. Déficit medido, não estimado.

Entreguei o estudo em 28 de julho. Fui desligado em 30.

Não tem moral da história aqui. Tem repertório: eu sei dirigir uma operação criativa entendendo o custo dela, e tenho a planilha pra provar.

hoje

Agosto de 2026. Vinte e um anos de carreira.

Olhando de longe, o padrão é constante e eu demorei pra enxergar. Vim do design, não da publicidade. Isso me deu método antes de me dar repertório, e é por isso que o que eu deixo pra trás são estruturas, e não peças.

O modelo de social que virou submarca. A operação criativa que virou estúdio vendido separado da agência. O jeito de fazer concorrência que a Artplan usou por anos. O app da Amanco que a marca oferece até hoje. As diretrizes da Justos, em uso três anos depois. A identidade da InPress, no ar. Seis empresas onde alguma coisa que eu construí continuou funcionando sem mim.

Campanha expira. Estrutura fica.

Trabalho com criatividade porque é o único ativo que não commoditiza. Trabalho com marca porque é onde esse ativo vira valor de empresa. Praticamente nenhum diretor de criação carrega planilha. Eu carrego.

Sigo tentando.

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